A Sociologia constitui uma das ciências da sociedade, ao lado da Antropologia, da Ciência Política, da Economia, da Psicologia, da História, sem contar outros ramos científicos afins. Mas, o conhecimento científico da realidade social não é a única forma de conhecimento própria da tradição cultural das sociedades européias ocidentais modernas que, por sua vez buscaram muitas de suas descobertas nas tradições culturais de outras sociedades, de outras épocas. Porém, as condutas sistemáticas das ciências só puderam avanças depois da própria experiência de sua crítica, ou seja, depois que pensamos a nossa própria forma de pensar.
De qualquer forma, perceber, classificar, relacionar, interpretar e criticar fatos naturais e sociais é uma propriedade absolutamente humana. Diferente dos outros animais, agem por estímulos naturais e instintivos, o homem inventou relações sociais e formas de convívio social com regras de conduta e linguagens propriamente humanas, que são alteradas ao longo da história. Assim, o homem constrói práticas sociais e as reelabora, entre outras coisas, pela concepção particular que cada sociedade tem de suas invenções frente a outras sociedades. O homem de cada tempo e lugar produz e interpreta suas próprias invenções, suas relações sociais e linguagens, enfim, além de agir sobre sua realidade, busca compreender-se. Esta é uma conduta propriamente sociológica, nem sempre compreendida.
Como se vê, a Sociologia não se defronta apenas com o que vagamente se chama de “realidade”. Diversamente de outras ciências, ela lida ao mesmo tempo com as interpretações que são feitas sobre essa mesma “realidade” . o conhecimento cientifico da vida social não se baseia apenas no “fato”, mas na concepção do fato e na relação entre a concepção e o fato .
Ou seja, ao mesmo tempo em que constituiu práticas sociais (econômicas, políticas, sexuais, lingüisticas e tantas outras), cada sociedade formula interpretações sobre si e sobre sociedades diferentes da sua, de forma crítica. O conhecimento como característica de humanidade é a preocupação inicial do livro de Costa , como podemos ver pelos seguintes trechos:
Nas várias espécies de animais existentes sobre a Terra encontramos formas estabelecidas de relacionamento que nos fazem pensar na existência de regras que ordenam a vida comunitária. Percebemos facilmente que nos fazem pensar na existência de regras que ordenam a vida comunitária. Percebemos facilmente que os diversos animais se agrupam, convivem, se acasalam, sobrevivem e se reproduzem de forma mais ou mesmo ordenada, em função de suas potencialidades e do ambiente em que vivem.
A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser o objetivo das suas formas de vida, convivência e sociedades. Assim, alguns animais têm um ciclo de vida que lhes permite a reprodução e a manutenção de sua sobrevivência e a de seus descendentes. Estabelecem para isso modos de vida mais ou menos complexos, como os sistemas de acasalamento, alojamento migração, defesa e alimentação. (...)
O homem também faz tudo isso, porém, acima dos limites naturais e de sua própria estrutura genética, é o único animal que necessita de aprendizado para uma série de atividades que lhe são próprias e que são orientadas por regras socialmente elaboradas e compartilhadas, tais como as regras sociais de reprodução biológica, regra de trabalho, de organização e administração da sociabilidade, entre outras.
(...) Assim, as crianças aprendem a comer, a beber e dormir em horários regulares; aprendem a brincar e a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar; comerciar; administrar; governar; (...)
Mas, além disso, desenvolverão a capacidade de criticar essas regras, de reelaborá-las, tanto pela insatisfação diante das condições sociais que as regras criam, como pela capacidade humana de repensar as concepções de existir vigentes. Assim, o homem pensa e reelabora suas ações e invenções sociais e também pensa sobre seus próprios pensamentos.
Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo Qual as gerações mais velhas orientam e passam ás gerações subsequentes suas experiências adquiridas. Essa característica essencialmente humana só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem através das quais dá significado às suas experiências vividas transmite a seus semelhantes.
Se, podemos detectar em outros animais certa capacidade de comunicação, nunca foi neles percebida a possibilidade de transmitir uma experiência particular.
Por exemplo, um cachorro não ensina outro a buscar o jornal, a fingir de morto, a “ficar de pé”. Da mesma forma, um elefante não ensina outro a correr em círculos nos circos, um macaco não ensina outro a saltar argolas, como também fazem os golfinhos amestrados em piscinas. Todos são apenas condicionados por estímulos artificiais que o homem opera em sua natureza.
Sem tais estímulos artificiais, ocorre que: As capacidades características dos animais se desenvolvem de maneira predominante instintiva e se transmite aos descendentes pela carga genética
O homem, por sua vez, deve transmitir por uma série ordenada de símbolos suas experiências e interpretações da realidade.
Transformar a experiência vivida em um discurso simbólico quer dizer que, ao agir e pensar, simultaneamente, o homem dá primazia à sua existência diante de outros homens, que o possam compreender com maior ou menor grau de afinidade. Assim, o homem não existe em uma dimensão puramente individual, mas, antes de tudo, existe em uma dimensão social, coletiva. Este é o sentido de dizer o homem é um ser social: o homem simboliza para os outros homens a sua existência. Voltaremos, mais adiante, a discutir as dimensões do individual e do coletivo na existência humana.
O homem, portanto, é capaz de simbolizar, de atribuir significado às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Este é o cerne de sua capacidade simbólica e de sua humanidade. Inversamente, podemos dizer que a humanidade como característica supra-animal decorre da capacidade do homem de simbolizar.
A capacidade criadora e adaptativa do homem é, reconhecidamente, um traço universal. O conhecimento e a reelaboração do mundo se dá em todas as sociedades, porque em todas se apresentam desafios diante da natureza e diante da vida social, ou seja, em todas se colocam novos problemas. Entretanto, a maneira de resolver problemas não é a mesma, reiterando a mencionada capacidade criadora e recriadora do homem. As sociedades “escolhem” soluções diferenciadas para os desafios de sua existência. Daí, a heterogeneidade nas formas de reprodução social e cultural e as diferenças nas formas de processar a vida social.
(...) Quando os homens se colocaram novos problemas, surgiram novas elaborações tidas como mais adequadas; mais úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado, as culturas humanas tendem a ritualização e á repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, elas apresentam também a possibilidade de mudança e adaptação. Podemos então concebê-las como processos.
Essa idéia de processo, baseada no vínculo existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada agrupamento humano, nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade nem de nível: devem-se a circunstancias especificas que as cercam. (...) Isto quer dizer que as comparações que fazemos entre sociedades “mais desenvolvidas e menos desenvolvidas”, seja por diferenças tecnológicas, níveis de produção e de consumo, emprego da linguagem escrita ou outro atributo qualquer, não passam de pré-conceitos. Se certas sociedades não desenvolveram o alfabeto e a linguagem gráfica, é porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque sua capacidade mental fosse “inferior”. A capacidade simbólica e os padrões de todas as culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos problemas de compreensão do mundo. É isto o que demonstram antropólogos nos dias de hoje, especialmente Claude Levi-Strauss , tornando impróprias as denominações “sociedades primitivas”, “atrasadas”, “arcaicas” quando nos referimos, por exemplo, ás sociedades nativas brasileiras. Devemos chamá-las pelos seus próprios nomes: Tupinambá, Guarani, Yanomami, Apinayé, Xavante, tal como apreciamos a nossa própria identidade social e cultural, seja qual for.
É evidente, então, que as hierarquias sociais estabelecidas entre as sociedades e mesmo no interior de uma única sociedade devem-se aos processos de Dominação que certas sociedades e grupos impõem a outros, gerando desigualdade social e cultural, que não é a mesma coisa que diversidade social e cultural .
As sociedades não apenas reproduzem suas culturas, mas as transformam, através de inovações e de reelaborações do que existia em suas experiências sensíveis, materiais e imateriais. As sociedades fazem mais do que a reprodução da cultura, fazem produção de novas experiências culturais. A partir daí, podemos perceber problemas centrais da Sociologia: estudar a dinâmica social e cultural, ou seja, estudar a natureza dos processos sociais e as mudanças que eles operam nas sociedades, algo muito diferente do estudo da nossa natureza dos processos sociais e as mudanças que eles operam nas sociedades, algo muito diferente do estudo da nossa natureza biológica e suas transformações.
Focalizar processos e mudanças sociais significa, em resumo, perguntar e responder: quem são os agrupamentos, as classes, os sujeitos ou agentes sociais da reprodução e da inovação cultural em uma determinada sociedade? Mais do que isto, a sociologia pergunta e tenta responder como os sujeitos sociais agem, porque age de uma certa forma e com quais interesses agem? Neste ponto, podemos perceber a importância da sociologia como prática de conhecimento das experiências sociais.
terça-feira, 20 de abril de 2010
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