2.1 O Conceito de Movimentos Culturais
Entendemos por movimentos culturais aqueles processos iniciados e promovidos pelos diversos sujeitos sociais que compartilham valores que os une em uma identidade comum. Diante da diversidade acima resumida, parece claro que os valores que orientam os interesses das diferentes classes e grupos da sociedade não são nem poderiam ser os mesmos. Decorre daí que a dinâmica cultural apareça dividida em movimentos ligados aos interesses dos diversos sujeitos, seja a partir das suas posições de classe, de suas religiões, etnias, seja a partir de outros valores que os identificam. Por exemplo, os interesses culturais das classes proprietários quase sempre coincidem com suas posições de classe. Mas nem sempre, por várias razoes, que veremos adiante.
2.2 A Dinâmica dos Movimentos Culturais: movimentos “instituídos” e movimentos “instituintes”
São tantos os processos da dinâmica cultural em uma sociedade complexa que tendemos a não distingui-los em seu caráter particular. Por exemplo, as iniciativas culturais do Estado, sejam as mais óbvias como o sistema escolar público, sejam as políticas setoriais de cultura (cinema, teatro, música, folclore, dança, etc.), parecem ter a mesma natureza e processamento que as da iniciativa privada nos mesmos setores. Entretanto, sabemos que as identidades e os interesses envolvidos nas esferas pública e privada combinam-se de forma muito mais complexa do que indicam as aparências. Tanto isto é verdade que hoje em dia os movimentos culturais tendem a se dividir em suas tendências. A primeira envolve os movimentos “instituídos”, ou seja, as instituições e movimentos do Estado e as demais instituições culturais dominantes, como as religiões e as empresas da indústria cultural. A segunda tendência envolve os movimentos “instituintes”, ou seja, os movimentos da sociedade civil cuja iniciativa nasce fora dos interesses do Estado e das instituições e empresas dominantes. Daí, o aparecimento de movimentos em defesa da cidadania, das etnias minoritárias, do meio ambiente, das mulheres, das manifestações culturais dominadas. São as iniciativas das organizações não-governamentais e aquelas que procuram distanciar-se dos interesses mercantis da indústria cultural
Assim, os movimentos culturais se organizam e se processam em maior ou menor grau conforme a identidade e os interesses do sujeitos sociais. Há movimentos com elevado grau de organização, institucionalização e abrangência, confundindo-se com as próprias instituições dominantes da sociedade, como é o caso dos movimentos processados no âmbito dos órgãos do Estado, ou então as produções da indústria cultural. De outro lado, existem inúmeros movimentos culturais cuja iniciativa vem dos mais diversos grupos singulares, centrados em um aspecto da realidade social que os interessa de perto.
Depois dessas definições e exemplificações, compreendemos porque dividimos a cultura em grandes conjuntos, tais como cultura erudita, cultura popular, cultura artística, cultura religiosa, cultura de consumo ou cultura de massas. Com tais denominações buscam-se as referências que orientam os sujeitos na sua inserção na sociedade. Percebemos, também, como é absurdo dizer que alguém não tem cultura. Nas sociedades complexas compartilhamos de elementos culturais de todos esses conjuntos, em maior ou menor grau, escolhendo os que orientam nossa identidade e nossos interesses. É por isso que, em muitas situações, vemos sujeitos sociais das classes sociais dominadas compartilhando valores das classes dominantes e vice-versa. A cultura tem uma dimensão multifacetada, na qual os valores e interesses são, muitas vezes, implícitos e, por isso, não parecem imediatamente lógicos. Por exemplo, uma pessoa de classe dominante, formada no universo da cultura escolar e ilustrada, pode compartilhar de um ritual religioso da cultura popular orientada por valores que não são os mesmos cultivados pelos próprios agentes da cultura popular. Neste caso, a pessoa pode ver o ritual apenas como “folclore”, pode orientar-se por um sentimento “populista”, pode ter interesses políticos ou econômicos no ritual. Em um outro exemplo, também bastante comum e notável, observamos que as pessoas de classe trabalhadora consomem produtos culturais muitas vezes antagônicos a seus valores e interesses. É o caso de certos programas de televisão e de outros produtos da indústria cultual que, a pretexto de agradar as “massas” e serem “populares”, acabam rebaixando as manifestações da cultura popular ao nível da estupidez. Neste caso, notamos a ambivalência da indústria cultural e da própria cultura popular. Enfim, a maneira como os diferentes sujeitos se inserem nos diversos conjuntos culturais apresenta múltiplas faces combinadas, ora de maneira solidária, ora de maneira tensa e conflituosa.
Neste ponto, já podemos falar do processo central da dinâmica cultural nas sociedades complexas, que é a luta simbólica, processo que envolve todos os sujeitos sociais, mesmo aqueles que parecem “excluídos” da sociedade; envolve, portanto, a totalidade social. Neste processo, alguns temas são mais freqüentes do que outros e referem-se às relações sociais e culturais observadas naqueles diversos conjuntos mencionados.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
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