quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Conceito de Movimentos Culturais

2.1 O Conceito de Movimentos Culturais
Entendemos por movimentos culturais aqueles processos iniciados e promovidos pelos diversos sujeitos sociais que compartilham valores que os une em uma identidade comum. Diante da diversidade acima resumida, parece claro que os valores que orientam os interesses das diferentes classes e grupos da sociedade não são nem poderiam ser os mesmos. Decorre daí que a dinâmica cultural apareça dividida em movimentos ligados aos interesses dos diversos sujeitos, seja a partir das suas posições de classe, de suas religiões, etnias, seja a partir de outros valores que os identificam. Por exemplo, os interesses culturais das classes proprietários quase sempre coincidem com suas posições de classe. Mas nem sempre, por várias razoes, que veremos adiante.

2.2 A Dinâmica dos Movimentos Culturais: movimentos “instituídos” e movimentos “instituintes”
São tantos os processos da dinâmica cultural em uma sociedade complexa que tendemos a não distingui-los em seu caráter particular. Por exemplo, as iniciativas culturais do Estado, sejam as mais óbvias como o sistema escolar público, sejam as políticas setoriais de cultura (cinema, teatro, música, folclore, dança, etc.), parecem ter a mesma natureza e processamento que as da iniciativa privada nos mesmos setores. Entretanto, sabemos que as identidades e os interesses envolvidos nas esferas pública e privada combinam-se de forma muito mais complexa do que indicam as aparências. Tanto isto é verdade que hoje em dia os movimentos culturais tendem a se dividir em suas tendências. A primeira envolve os movimentos “instituídos”, ou seja, as instituições e movimentos do Estado e as demais instituições culturais dominantes, como as religiões e as empresas da indústria cultural. A segunda tendência envolve os movimentos “instituintes”, ou seja, os movimentos da sociedade civil cuja iniciativa nasce fora dos interesses do Estado e das instituições e empresas dominantes. Daí, o aparecimento de movimentos em defesa da cidadania, das etnias minoritárias, do meio ambiente, das mulheres, das manifestações culturais dominadas. São as iniciativas das organizações não-governamentais e aquelas que procuram distanciar-se dos interesses mercantis da indústria cultural

Assim, os movimentos culturais se organizam e se processam em maior ou menor grau conforme a identidade e os interesses do sujeitos sociais. Há movimentos com elevado grau de organização, institucionalização e abrangência, confundindo-se com as próprias instituições dominantes da sociedade, como é o caso dos movimentos processados no âmbito dos órgãos do Estado, ou então as produções da indústria cultural. De outro lado, existem inúmeros movimentos culturais cuja iniciativa vem dos mais diversos grupos singulares, centrados em um aspecto da realidade social que os interessa de perto.

Depois dessas definições e exemplificações, compreendemos porque dividimos a cultura em grandes conjuntos, tais como cultura erudita, cultura popular, cultura artística, cultura religiosa, cultura de consumo ou cultura de massas. Com tais denominações buscam-se as referências que orientam os sujeitos na sua inserção na sociedade. Percebemos, também, como é absurdo dizer que alguém não tem cultura. Nas sociedades complexas compartilhamos de elementos culturais de todos esses conjuntos, em maior ou menor grau, escolhendo os que orientam nossa identidade e nossos interesses. É por isso que, em muitas situações, vemos sujeitos sociais das classes sociais dominadas compartilhando valores das classes dominantes e vice-versa. A cultura tem uma dimensão multifacetada, na qual os valores e interesses são, muitas vezes, implícitos e, por isso, não parecem imediatamente lógicos. Por exemplo, uma pessoa de classe dominante, formada no universo da cultura escolar e ilustrada, pode compartilhar de um ritual religioso da cultura popular orientada por valores que não são os mesmos cultivados pelos próprios agentes da cultura popular. Neste caso, a pessoa pode ver o ritual apenas como “folclore”, pode orientar-se por um sentimento “populista”, pode ter interesses políticos ou econômicos no ritual. Em um outro exemplo, também bastante comum e notável, observamos que as pessoas de classe trabalhadora consomem produtos culturais muitas vezes antagônicos a seus valores e interesses. É o caso de certos programas de televisão e de outros produtos da indústria cultual que, a pretexto de agradar as “massas” e serem “populares”, acabam rebaixando as manifestações da cultura popular ao nível da estupidez. Neste caso, notamos a ambivalência da indústria cultural e da própria cultura popular. Enfim, a maneira como os diferentes sujeitos se inserem nos diversos conjuntos culturais apresenta múltiplas faces combinadas, ora de maneira solidária, ora de maneira tensa e conflituosa.
Neste ponto, já podemos falar do processo central da dinâmica cultural nas sociedades complexas, que é a luta simbólica, processo que envolve todos os sujeitos sociais, mesmo aqueles que parecem “excluídos” da sociedade; envolve, portanto, a totalidade social. Neste processo, alguns temas são mais freqüentes do que outros e referem-se às relações sociais e culturais observadas naqueles diversos conjuntos mencionados.

movimentos culturais

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se firmaram como a maior potência do mundo capitalista. Entretanto, a situação de crise econômica enfrentada pelos países europeus, poderia se tornar uma ameaça à prosperidade norte-americana, já que um grande mercado consumidor fora arrasado pela guerra. Nesse contexto, a Doutrina Truman surgiu como uma solução viável, promovendo tanto a recuperação econômica dos aliados europeus quanto, no âmbito interno, a estimulação da capacidade aquisitiva da população norte-americana. No cenário da Guerra Fria, o consumismo norte-americano era considerado a melhor forma de afastar o perigo comunista .A partir da década de 50, a emergente sociedade de consumo passou a abarcar um novo mercado com o surgimento a cultura jovem. A cultura da juventude, apesar de tender à insatisfação e revolta com os valores mais arcaicos da sociedade ainda era um tanto ingênua no seu surgimento. Era ligada ao fenômeno do rock n roll que, apesar de chocante para os padrões morais da época, não era politicamente engajado, falando sobre carros e relacionamentos amorosos. Ainda assim, as mudanças introduzidas pela cultura jovem, passaram a ser assimiladas pela indústria cultural e, consequentemente divulgadas através dos meios de comunicação podendo atingir os diversos países do globo, inclusive o Brasil. A cultura jovem brasileira dos anos 50 sofreu uma influencia direta dos Estados Unidos, pois nessa época o Brasil havia entrado na onda da industrialização permitindo, com a política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, que a cultura estrangeira se incorporasse à cultura nacional, propiciando o surgimento de novos movimentos como a bossa nova. O rock n roll também chegou ao Brasil através do cinema e seus sucessos foram regravados por cantores e cantoras brasileiras. Foi somente a partir dos anos 60 que a juventude se mostrou mais engajada e politizada. A guerra do Vietnã e os movimentos negros motivaram os jovens a lutar pela transformação da sociedade. Esse quadro político e social propiciou o aparecimento da canção de protesto, mas, ao mesmo tempo houve a ascensão do rock britânico através de bandas como os Beatles e os Rolling Stones. Na segunda metade dos anos 60, houve uma radicalização dos movimentos jovens, foi um período marcado pela contracultura, fenômeno no qual o jovem passava a se conduzir de forma contrária os valores estabelecidos pela sociedade. Os movimentos de contracultura, como por exemplo o hippie, nasceram do desejo de uma felicidade individual, simples, distante da sociedade de consumo e do moralismo. Daí veio o culto à paz, harmonia, o amor livre o misticismo e o uso de drogas como o LSD. A contestação dos movimentos de contracultura culminou com a radicalização dos movimentos estudantis a partir do maio de 68 na França, que não estava vinculado a nenhuma ideologia específica, mas apregoava o direito de cada um de pensar e se expressar livremente. No final da década de 60, os movimentos de contracultura se fragmentaram, sendo que alguns desses fragmentos foram assimilados pela indústria cultural. No Brasil, a década de 60 foi marcada por uma profunda agitação política e diversas correntes culturais. Havia a cultura engajada dos Centros Populares de Cultura que continha uma intensa militância política na qual uma parte do movimento da bossa nova evoluiu para as canções de protesto com o objetivo de conscientizar as classes populares. Por outro lado, havia a cultura de consumo, representada pela Jovem Guarda e baseada na cultura do rock cujos maiores representantes eram Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia. No meio do caminho entre essas duas correntes surgiu o Tropicalismo, movimento liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e inspirado no antropofagismo das vanguardas modernistas brasileiras dos anos 20. Por não se encaixar nem nos padrões estéticos da cultura engajada esquerdista nem no padrão de consumo industrial, o Tropicalismo teve curta duração. Já o cinema brasileiro desse período fez muito sucesso, inclusive internacional. O Cinema Novo sofreu influência da Nouvelle Vague francesa e se desenvolveu graças ao ambiente favorável da cultura engajada, promovendo uma visão crítica da situação política e social do Brasil. Após o golpe militar de 64, o Cinema Novo passou a refletir sobre o papel da própria esquerda, focalizando a classe média urbana. Nos anos 70, com a assimilação da contracultura, a cultura jovem se dividiu e se sofisticou com o rock progressivo, o heavy metal e a discoth que. Reagindo a essa tendência, surgiu o movimento punk, vinculado à juventude proletária das grandes cidades, que iria reciclar o rock, tocando-o de forma menos sofisticada. Os punks organizaram seus grupos musicais que eram contra o sistema industrial, vinculando-se a gravadoras independentes. Como reflexo da onda hippie dos anos 60, o movimento de contracultura no Brasil surgiu na década de 70, em um momento de intensa repressão pela ditadura militar. Era um movimento híbrido de contestação que misturava elementos da contracultura hippie com a cultura popular brasileira. Esse movimento era denominado de cultura marginal e foi difundida através de publicações alternativas com Pasquim, Bondinho, Rolling Stone entre outras. Na área cinematográfica, iniciou-se a produção de um cinema marginal que procurava revolucionar a linguagem através de um discurso fragmentado incorporando elementos de kich e absurdos. Nos aos 80, a cultura jovem passou a envolver movimentos pacifistas e ecologistas ao redor do mundo, denunciando os problemas envolvendo os países de terceiro mundo e o meio ambiente. Em contrapartida os avanços tecnológicos passaram a influenciar a música (pós-punk, hardcore trash metal, tecnopop entre outros) e o cinema (efeitos especiais). A formação de entidades ecológicas também envolveu a juventude brasileira, que inclusive participou do movimento das Diretas Já, lutando pelo processo de redemocratização. Na música, o rock nacional ganhou espaço tanto por meio de gravadoras quanto nos selos independentes. A cultura jovem dos anos 90 foi influenciada pela globalização, pelo avanço representado pela internet e foi marcada por grupos como cyberpunks e movimentos como o grunge. No Brasil, a juventude participou ativamente do movimento dos caras-pintadas pelo impeachment do presidente Collor. Foi também a época da expansão do hip hop e o surgimento do mangue beat. Os movimentos culturais da juventude se apresentaram ao longo da história das mais diversas formas e linguagens, porém, de um modo geral, mantinham um objetivo comum e universal, de romper com antigos costumes e imposições sociais, provocando discussão sobre assuntos considerados tabus e buscando a renovação e transformação da sociedade


Texto retirado do ebaH.
(O ebaH! é a primeira rede de relacionamentos acadêmicos do Brasil para a troca de informação e conhecimento.)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Processo Social.

A Sociologia constitui uma das ciências da sociedade, ao lado da Antropologia, da Ciência Política, da Economia, da Psicologia, da História, sem contar outros ramos científicos afins. Mas, o conhecimento científico da realidade social não é a única forma de conhecimento própria da tradição cultural das sociedades européias ocidentais modernas que, por sua vez buscaram muitas de suas descobertas nas tradições culturais de outras sociedades, de outras épocas. Porém, as condutas sistemáticas das ciências só puderam avanças depois da própria experiência de sua crítica, ou seja, depois que pensamos a nossa própria forma de pensar.
De qualquer forma, perceber, classificar, relacionar, interpretar e criticar fatos naturais e sociais é uma propriedade absolutamente humana. Diferente dos outros animais, agem por estímulos naturais e instintivos, o homem inventou relações sociais e formas de convívio social com regras de conduta e linguagens propriamente humanas, que são alteradas ao longo da história. Assim, o homem constrói práticas sociais e as reelabora, entre outras coisas, pela concepção particular que cada sociedade tem de suas invenções frente a outras sociedades. O homem de cada tempo e lugar produz e interpreta suas próprias invenções, suas relações sociais e linguagens, enfim, além de agir sobre sua realidade, busca compreender-se. Esta é uma conduta propriamente sociológica, nem sempre compreendida.

Como se vê, a Sociologia não se defronta apenas com o que vagamente se chama de “realidade”. Diversamente de outras ciências, ela lida ao mesmo tempo com as interpretações que são feitas sobre essa mesma “realidade” . o conhecimento cientifico da vida social não se baseia apenas no “fato”, mas na concepção do fato e na relação entre a concepção e o fato .

Ou seja, ao mesmo tempo em que constituiu práticas sociais (econômicas, políticas, sexuais, lingüisticas e tantas outras), cada sociedade formula interpretações sobre si e sobre sociedades diferentes da sua, de forma crítica. O conhecimento como característica de humanidade é a preocupação inicial do livro de Costa , como podemos ver pelos seguintes trechos:
Nas várias espécies de animais existentes sobre a Terra encontramos formas estabelecidas de relacionamento que nos fazem pensar na existência de regras que ordenam a vida comunitária. Percebemos facilmente que nos fazem pensar na existência de regras que ordenam a vida comunitária. Percebemos facilmente que os diversos animais se agrupam, convivem, se acasalam, sobrevivem e se reproduzem de forma mais ou mesmo ordenada, em função de suas potencialidades e do ambiente em que vivem.
A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser o objetivo das suas formas de vida, convivência e sociedades. Assim, alguns animais têm um ciclo de vida que lhes permite a reprodução e a manutenção de sua sobrevivência e a de seus descendentes. Estabelecem para isso modos de vida mais ou menos complexos, como os sistemas de acasalamento, alojamento migração, defesa e alimentação. (...)
O homem também faz tudo isso, porém, acima dos limites naturais e de sua própria estrutura genética, é o único animal que necessita de aprendizado para uma série de atividades que lhe são próprias e que são orientadas por regras socialmente elaboradas e compartilhadas, tais como as regras sociais de reprodução biológica, regra de trabalho, de organização e administração da sociabilidade, entre outras.

(...) Assim, as crianças aprendem a comer, a beber e dormir em horários regulares; aprendem a brincar e a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar; comerciar; administrar; governar; (...)

Mas, além disso, desenvolverão a capacidade de criticar essas regras, de reelaborá-las, tanto pela insatisfação diante das condições sociais que as regras criam, como pela capacidade humana de repensar as concepções de existir vigentes. Assim, o homem pensa e reelabora suas ações e invenções sociais e também pensa sobre seus próprios pensamentos.

Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo Qual as gerações mais velhas orientam e passam ás gerações subsequentes suas experiências adquiridas. Essa característica essencialmente humana só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem através das quais dá significado às suas experiências vividas transmite a seus semelhantes.
Se, podemos detectar em outros animais certa capacidade de comunicação, nunca foi neles percebida a possibilidade de transmitir uma experiência particular.

Por exemplo, um cachorro não ensina outro a buscar o jornal, a fingir de morto, a “ficar de pé”. Da mesma forma, um elefante não ensina outro a correr em círculos nos circos, um macaco não ensina outro a saltar argolas, como também fazem os golfinhos amestrados em piscinas. Todos são apenas condicionados por estímulos artificiais que o homem opera em sua natureza.
Sem tais estímulos artificiais, ocorre que: As capacidades características dos animais se desenvolvem de maneira predominante instintiva e se transmite aos descendentes pela carga genética
O homem, por sua vez, deve transmitir por uma série ordenada de símbolos suas experiências e interpretações da realidade.
Transformar a experiência vivida em um discurso simbólico quer dizer que, ao agir e pensar, simultaneamente, o homem dá primazia à sua existência diante de outros homens, que o possam compreender com maior ou menor grau de afinidade. Assim, o homem não existe em uma dimensão puramente individual, mas, antes de tudo, existe em uma dimensão social, coletiva. Este é o sentido de dizer o homem é um ser social: o homem simboliza para os outros homens a sua existência. Voltaremos, mais adiante, a discutir as dimensões do individual e do coletivo na existência humana.
O homem, portanto, é capaz de simbolizar, de atribuir significado às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Este é o cerne de sua capacidade simbólica e de sua humanidade. Inversamente, podemos dizer que a humanidade como característica supra-animal decorre da capacidade do homem de simbolizar.
A capacidade criadora e adaptativa do homem é, reconhecidamente, um traço universal. O conhecimento e a reelaboração do mundo se dá em todas as sociedades, porque em todas se apresentam desafios diante da natureza e diante da vida social, ou seja, em todas se colocam novos problemas. Entretanto, a maneira de resolver problemas não é a mesma, reiterando a mencionada capacidade criadora e recriadora do homem. As sociedades “escolhem” soluções diferenciadas para os desafios de sua existência. Daí, a heterogeneidade nas formas de reprodução social e cultural e as diferenças nas formas de processar a vida social.
(...) Quando os homens se colocaram novos problemas, surgiram novas elaborações tidas como mais adequadas; mais úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado, as culturas humanas tendem a ritualização e á repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, elas apresentam também a possibilidade de mudança e adaptação. Podemos então concebê-las como processos.
Essa idéia de processo, baseada no vínculo existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada agrupamento humano, nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade nem de nível: devem-se a circunstancias especificas que as cercam. (...) Isto quer dizer que as comparações que fazemos entre sociedades “mais desenvolvidas e menos desenvolvidas”, seja por diferenças tecnológicas, níveis de produção e de consumo, emprego da linguagem escrita ou outro atributo qualquer, não passam de pré-conceitos. Se certas sociedades não desenvolveram o alfabeto e a linguagem gráfica, é porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque sua capacidade mental fosse “inferior”. A capacidade simbólica e os padrões de todas as culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos problemas de compreensão do mundo. É isto o que demonstram antropólogos nos dias de hoje, especialmente Claude Levi-Strauss , tornando impróprias as denominações “sociedades primitivas”, “atrasadas”, “arcaicas” quando nos referimos, por exemplo, ás sociedades nativas brasileiras. Devemos chamá-las pelos seus próprios nomes: Tupinambá, Guarani, Yanomami, Apinayé, Xavante, tal como apreciamos a nossa própria identidade social e cultural, seja qual for.
É evidente, então, que as hierarquias sociais estabelecidas entre as sociedades e mesmo no interior de uma única sociedade devem-se aos processos de Dominação que certas sociedades e grupos impõem a outros, gerando desigualdade social e cultural, que não é a mesma coisa que diversidade social e cultural .

As sociedades não apenas reproduzem suas culturas, mas as transformam, através de inovações e de reelaborações do que existia em suas experiências sensíveis, materiais e imateriais. As sociedades fazem mais do que a reprodução da cultura, fazem produção de novas experiências culturais. A partir daí, podemos perceber problemas centrais da Sociologia: estudar a dinâmica social e cultural, ou seja, estudar a natureza dos processos sociais e as mudanças que eles operam nas sociedades, algo muito diferente do estudo da nossa natureza dos processos sociais e as mudanças que eles operam nas sociedades, algo muito diferente do estudo da nossa natureza biológica e suas transformações.


Focalizar processos e mudanças sociais significa, em resumo, perguntar e responder: quem são os agrupamentos, as classes, os sujeitos ou agentes sociais da reprodução e da inovação cultural em uma determinada sociedade? Mais do que isto, a sociologia pergunta e tenta responder como os sujeitos sociais agem, porque age de uma certa forma e com quais interesses agem? Neste ponto, podemos perceber a importância da sociologia como prática de conhecimento das experiências sociais.